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DENÚNCIA:
PARTIDO DOS ''TRABALHADORES'' RECEBEU DINHEIRO DO
GOVERNO CUBANO
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A grande interrogação ainda não
respondida sobre o escândalo que flagrou o
governo e o PT num enorme esquema de corrupção
é a seguinte: afinal, de onde veio o dinheiro
que abasteceu o caixa dois do partido? Essa é a
pergunta que intriga as comissões parlamentares
de inquérito e as investigações policiais.
Pode ser que os recursos clandestinos do PT
tenham vindo de uma única fonte, mas o mais
provável, dada a fartura do dinheiro, é que
tenham origem em várias fontes. Uma
investigação de VEJA, iniciada há quatro
semanas, indica que uma das fontes foi Cuba. Sim,
a ilha de Fidel Castro, onde o dinheiro é
escasso até para colocar porta ou filtro de
água nas escolas, despachou uma montanha de
dólares para ajudar na campanha presidencial de
Luiz Inácio Lula da Silva. A apuração de VEJA
descobriu que:
Entre agosto e setembro de 2002, o comitê
eleitoral de Lula recebeu 3 milhões de dólares
vindos de Cuba. Ao chegar a Brasília, por meios
que VEJA não conseguiu identificar, o dinheiro
ficou sob os cuidados de Sérgio Cervantes, um
cubano que já serviu como diplomata de seu país
no Rio de Janeiro e em Brasília.
De Brasília, o dinheiro foi levado para
Campinas, a bordo de um avião Seneca,
acondicionado em três caixas de bebida. Eram
duas caixas de uísque Johnnie Walker, uma do
tipo Red Label e outra de Black Label, e uma
terceira caixa de rum cubano, o Havana Club. Quem
levou o dinheiro foi Vladimir Poleto, um
economista e ex-auxiliar de Antonio Palocci na
prefeitura de Ribeirão Preto.
Em Campinas, o dinheiro foi apanhado no
Aeroporto de Viracopos por Ralf Barquete, também
ex-auxiliar de Palocci em Ribeirão Preto.
Barquete chegou a bordo de um automóvel Omega
preto, blindado, dirigido por Éder Eustáquio
Soares Macedo. De Viracopos, o carro foi para
São Paulo, para deixar as caixas no comitê de
Lula na Vila Mariana, Zona Sul da capital
paulista, aos cuidados do então tesoureiro
Delúbio Soares. |
A história acima, resumida em
três tópicos, foi confirmada a VEJA por duas
fontes altamente relevantes, dado o pleno acesso
que tiveram aos detalhes do caso. A primeira foi
o advogado Rogério Buratti, que também
trabalhou na prefeitura de Ribeirão Preto na
gestão de Palocci. Procurado por VEJA no dia 20
de outubro, uma quinta-feira, Buratti recebeu a
revista no restaurante do hotel San Diego, em
Belo Horizonte. A entrevista durou duas horas e
meia. Reticente, Buratti não queria falar sobre
o assunto, mas não se furtou a confirmar o que
sabia. "Fui consultado por Ralf Barquete, a
pedido do Palocci, sobre como fazer para trazer 3
milhões de dólares de Cuba", disse
Buratti. Segundo ele, a consulta sobre a
transação cubana ocorreu durante um encontro
dos dois no Tennis Park, um clube de Ribeirão
Preto onde Buratti e Barquete costumavam jogar
tênis pela manhã. Buratti sugeriu internar o
dinheiro cubano pela via que lhe parecia mais
fácil. "Disse que poderia ser através de
doleiros." O advogado relata que, depois
disso, não teve mais contato com o assunto, mas
dias depois foi informado de seu desfecho.
"Sei que o dinheiro veio, mas não sei
como." As declarações de Buratti foram
gravadas com seu consentimento. VEJA relatou ao
ministro Palocci a história contada à revista
pelos seus ex-auxiliares. O comentário do
ministro: "Nunca ouvi falar nada sobre isso.
Pelo que estou ouvindo agora, me parece algo
muito fantasioso".
A outra confirmação veio de uma fonte ainda
mais qualificada, já que teve participação
direta na Operação Cuba: o economista Vladimir
Poleto, que hoje trabalha como consultor de
empresas. Poleto recebeu VEJA no dia 21 de
outubro, uma sexta-feira, no bar do hotel Plaza
Inn, em Ribeirão Preto. A conversa estendeu-se
das 10 da noite até as 3 da madrugada. Poleto,
apesar da longa duração do contato, ficou
assustado a maior parte do tempo. "Essa
história pode derrubar o governo", disse
ele mais de uma vez, sempre passando as mãos
pela cabeça, em sinal de nervosismo e
preocupação. No decorrer da entrevista, no
entanto, Poleto confessou que ele mesmo
transportou o dinheiro de Brasília a Campinas,
voando como passageiro em um aparelho Seneca em
que estavam apenas o piloto e ele. Fez questão
de ressalvar que, na ocasião, não sabia que
levava dinheiro. Achava que era bebida. "Eu
peguei um avião de Brasília com destino a São
Paulo com três caixas de bebida", disse.
"Depois do acontecimento, fiquei sabendo que
tinha dinheiro dentro de uma das caixas",
completou, acrescentando: "Quem me disse
isso foi Ralf Barquete. O valor era 1,4 milhão
de dólares". |
Poleto conta que, quando recebeu a
missão de pegar o dinheiro cubano, foi orientado
a ir ao Aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
Ali, embarcou no Seneca, emprestado por Roberto
Colnaghi, um empresário amigo de Palocci e um
dos maiores fabricantes de equipamentos para
irrigação agrícola do país. O avião decolou
cedo de Congonhas, por volta das 6 e meia da
manhã, e pousou em Brasília em torno das 10
horas. Ao contrário do que fora combinado, não
havia nenhum carro à espera de Poleto no
aeroporto da capital federal. Lá pelas 11 da
manhã, chegou uma van. Depois de embarcar nela,
Poleto foi levado a um apartamento em Brasília,
de cujo endereço não se recorda. Foi recebido
por um cubano, negro e alto, que lhe entregou as
três caixas de "bebida", lacradas com
fitas adesivas. "Lembro que era um
apartamento simples", diz. De volta ao
aeroporto de Brasília, as caixas foram
embarcadas no Seneca e iniciou-se a viagem de
regresso, que, por causa do mau tempo, terminou
no Aeroporto de Viracopos, em Campinas, e não em
Congonhas.
Por celular, Poleto avisou o amigo Barquete da
alteração de aeroporto e foi orientado a não
desgrudar das caixas. Por volta das 7 da noite,
Barquete, que vinha de Congonhas, chegou a
Viracopos. Estava em um Omega preto, dirigido por
Éder Eustáquio Soares Macedo, que hoje trabalha
como motorista da representação do Ministério
da Fazenda no Rio de Janeiro. O motorista ajudou
a colocar as caixas no porta-malas e dirigiu o
carro até São Paulo, onde o material foi
entregue a Delúbio Soares. "Nunca recebi
dinheiro de Ralf Barquete", mandou dizer o
ex-tesoureiro do PT. Na semana passada, Éder
Macedo confirmou a expedição a VEJA. "Não
me lembro do dia em que isso aconteceu, mas
aconteceu", disse. Por alguma razão Éder
Macedo, pouco depois dessa confirmação,
entendeu que não deveria falar do assunto e não
atendeu mais os telefonemas de VEJA, impedindo
assim que a revista pudesse confirmar com ele
outros detalhes. O Omega fora alugado pelo
comitê eleitoral do PT. O dono da locadora
chama-se Roberto Carlos Kurzweil, outro
empresário de Ribeirão Preto. Kurzweil
confirmou a VEJA que cedeu os serviços de Éder
Macedo, então seu motorista, para o PT. |
Um petista que pediu para que sua
identidade não fosse revelada contou a VEJA que,
da parte do governo de Cuba, quem tomou conta da
operação foi Sérgio Cervantes. Ele é cubano,
negro e alto, conferindo com a descrição que
Poleto faz do sujeito que lhe entregou as três
caixas de "bebida" em Brasília.
Cervantes morou em um modesto apartamento na
capital federal, localizado na Asa Sul, pelo
menos até 2003, quando deixou o posto de
conselheiro político da embaixada cubana no
Brasil. Cervantes é, de fato, o homem das
operações delicadas. Foi a primeira autoridade
cubana a se encontrar com um funcionário do
governo brasileiro para tratar do reatamento das
relações diplomáticas entre Brasil e Cuba, que
foi, afinal, consumado em 14 de junho de 1986.
"Em Cuba, quem trata desse tipo de missão,
assim como acontecia na URSS e países
comunistas, são espiões. Cervantes é agente do
Ministério do Interior", diz um diplomata
brasileiro que o conhece pessoalmente. Cervantes
também foi cônsul de Cuba no Rio de Janeiro. É
íntimo dos petistas.
Em março de 2003, quando deixou o cargo na
embaixada, Cervantes, que é amigo de Fidel
Castro e dirigente do Partido Comunista de Cuba,
fez questão de dar um abraço fraternal de
despedida no presidente Lula e no então ministro
José Dirceu. A cena foi fotografada e a imagem
está publicada nesta página. Cervantes conheceu
Lula ainda nos tempos de movimento sindical, no
ABC paulista. Tornou-se também grande amigo de
José Dirceu. Eles se conheceram ainda no fim da
década de 60, quando Dirceu esteve exilado na
ilha, e nunca mais perderam contato. Cervantes é
quem costuma recepcionar Dirceu em suas visitas
à ilha. Em julho do ano passado, por exemplo,
quando o então ministro da Casa Civil passou uma
semana de descanso em Cuba, Cervantes foi
recebê-lo no aeroporto e levou-o para um
encontro com Fidel Castro. Em retribuição, o
agente cubano ganhou uma caixa com peças de
reposição de automóvel, produto escassíssimo
em Cuba. Cervantes nega que tenha havido ajuda
financeira de Cuba para Lula. "Cuba está é
precisando de dinheiro. Como é que pode
mandar?", disse. "Isso não é
verdade." |
A investigação de VEJA,
associada às confirmações de duas testemunhas,
compõe um quadro sólido a respeito da
operação do dinheiro cubano, mas há um ponto
que merece reflexão. Buratti e Poleto apresentam
depoimentos fortes e comprometedores, mas
embasam-nos no que ouviram falar de Ralf Barquete
uma testemunha que não pode mais ser
ouvida. Em 8 de junho de 2004, Barquete morreu
vítima de câncer, aos 51 anos. Seria possível
que Buratti e Poleto estivessem sustentando uma
história falsa com base num morto, apenas porque
não pode contestá-la? No submundo do dinheiro
clandestino e das operações secretas, quase
tudo é possível e seria leviano descartar
liminarmente a hipótese de que a grande vítima
fosse o morto. Os contornos dos fatos e os
detalhes dos perfis dos envolvidos, porém,
mostram que nem Buratti nem Poleto estão
combinados em uma armação. A começar pelo fato
de que, entrevistados por VEJA em dias, locais e
cidades distintas, contam ambos uma história
semelhante, mas não idêntica. Buratti diz que
soube que Cuba mandou 3 milhões de dólares.
Poleto, 1,4 milhão.
É improvável que numa versão montada haja
divergência sobre um detalhe tão central, mas
há outro dado mais relevante o de que
Vladimir Poleto, depois de dizer tudo o que disse
a VEJA, mudou de idéia. Ele despachou um e-mail
para a revista pedindo para que não se fizesse
"uso do conteúdo" da conversa. Ali,
sugere que não autorizou a gravação do
diálogo e dá a entender que, diante de
"diversos copos de chope", pode ter
caído involuntariamente no "exacerbamento
de posicionamentos". VEJA respondeu o
e-mail, indagando as razões que o teriam levado
a uma mudança tão radical de postura, mas
Poleto não respondeu. Por essa razão, a revista
mantém, no corpo desta reportagem, os termos do
acordo selado com o entrevistado, que autorizou a
publicação do conteúdo da conversa e a
revelação de sua identidade. Houve, inclusive,
uma gravação da entrevista, também devidamente
autorizada por Poleto. A gravação, com sete
minutos de duração, resume, na voz dele, os
trechos mais importantes das revelações que fez
em cinco horas de conversa no Plaza Inn. A
tentativa de recuo de Poleto é uma expressão do
peso da verdade.
O aspecto mais decisivo da sinceridade com que
Buratti e Poleto falaram de Barquete talvez seja
o fato de que ambos têm profundo respeito pela
memória do amigo falecido. Os três foram amigos
íntimos até a morte de Barquete. As famílias
se conheciam e se visitavam. Poleto, até hoje,
é um amigo muito próximo do irmão de Barquete,
Ruy Barquete, que trabalha na Procomp, uma grande
fornecedora de terminais de loteria para a Caixa
Econômica Federal. Até a viúva de Barquete,
Sueli Ribas Santos, já comentou o assunto. Foi
em um período em que se encontrava magoada com o
PT por entender que seu falecido marido estava
sendo crucificado. Buratti denunciara que o
então prefeito Palocci recebia um mensalão de
50.000 reais de uma empresa de recolhimento de
lixo e quem pegava o dinheiro era o
secretário da Fazenda, Ralf Barquete. A viúva
desabafou: "Eles pegavam dinheiro até de
Cuba!" O desabafo foi feito para um
empresário de Ribeirão Preto, Chaim Zaher, dono
de uma escola e de uma faculdade, além de uma
emissora de rádio. Zaher não foi encontrado por
VEJA para falar do assunto. A viúva, que já
não tem mágoa do PT, nega.
A amizade entre Barquete, Buratti e Poleto
prosseguiu em Brasília, com a posse do governo
do PT. Eles todos costumavam freqüentar uma
mesma casa, alugada num bairro nobre de
Brasília, na qual discutiam eventuais negócios
que poderiam ser feitos tendo como gancho a
influência que tinham junto ao ministro da
Fazenda. O próprio Palocci freqüentou a casa,
à qual os amigos chamavam de "central de
negócios". A casa foi alugada por Poleto,
que pagou adiantado e em dinheiro vivo os
primeiros meses de aluguel. Foram 60.000 reais.
"Era para ser uma espécie de ponto de
referência para quem quisesse fazer negócios em
Brasília", diz Poleto. O grupo de amigos de
Ribeirão Preto que ia à casa era mais amplo.
Incluía o empresário Roberto Colnaghi, o dono
do Seneca que voou com os dólares cubanos. E
não só: Colnaghi também é um dos sócios do
jato Citation, prefixo PT-XAC, que ficava à
disposição de Palocci durante a campanha de
Lula. A casa era freqüentada ainda por Roberto
Kurzweil, o dono do Omega blindado em que
Barquete transportou os dólares cubanos.
Kurzweil também era dono do blindado usado pelo
então tesoureiro Delúbio Soares. |
De Cuba, sabe-se que não sai
dinheiro privado, pelo menos não em quantidades
expressivas. Não há um empresário privado
altamente bem-sucedido que possa se interessar em
despachar recursos para o PT, ou mesmo uma ONG
política, humanitária, ecológica, o que
fosse que, clandestinamente, pudesse
querer ajudar os petistas na sua empreitada para
governar o Brasil. Por essa razão, é lícito
supor que o dinheiro que chegou ao caixa dois do
PT deve ter saído apenas de dois lugares que, no
fundo, constituem um só: os cofres do governo
cubano ou os cofres do único partido político
legalmente organizado, o Partido Comunista
Cubano. Isso significa dizer que o Estado cubano,
com sua contribuição financeira, seja ela de 3
milhões de dólares, seja de 1,4 milhão,
procurou interferir nos rumos da política
brasileira. Na história da humanidade, são
inúmeros os casos em que um governo estrangeiro
tenta influir nos destinos de outro. Mas quem
cedeu aos encantos de Cuba cometeu um crime. E
grave.
A Lei 9096, aprovada em 1995, informa que é
proibido um partido político receber recursos do
exterior. Se isso ocorre, o partido fica sujeito
ao cancelamento de seu registro na Justiça
Eleitoral. Ou seja: o partido precisa fechar as
portas. O candidato desse partido o
presidente Lula, no caso não pode ser
legalmente responsabilizado por nada, já que sua
diplomação como eleito aconteceu há muito
tempo. O recebimento de dinheiro estrangeiro,
porém, não se resume a esse quadro simples.
"Isso é a coisa mais grave que
existe", diz o professor Walter Costa Porto,
especialista em direito eleitoral e ex-ministro
do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). "É
tão grave, mas tão grave, que é a primeira das
quatro situações previstas na lei para cassar o
registro de um partido político. Isso é um
atentado à soberania do país. É letal",
comenta o ex-ministro. Caso as investigações
oficiais confirmem que o PT recebeu dinheiro de
Cuba, e o partido venha a ter o registro
cancelado, o cenário político brasileiro será
varrido por um Katrina: isso porque os petistas,
sem partido, não poderiam se candidatar na
eleição de 2006. Nem o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva. |
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